Papa no Santuário El Quinche: perseverar na missão, como Nossa Senhora


Quito (RV) – No final da manhã desta quarta-feira (8/7), horário do Equador, Papa Francisco encontrou o clero, religiosos, religiosas e seminaristas no Santuário Nacional Mariano “El Quinche”. O Pontífice improvisou na hora de falar aos presentes. O discurso oficial do Santo Padre que não foi lido, já foi entregue para publicação e é o seguinte:

“Queridos irmãos e irmãs! Trago aos pés de Nossa Senhora de El Quinche o que vivi nestes dias da minha visita. Quero deixar no seu coração, os idosos e doentes com quem acabo de partilhar alguns momentos na casa das Irmãs da Caridade, bem como todos os outros dos encontros anteriores. Deixo-os no coração de Maria, mas também os deposito no coração de vocês: sacerdotes, religiosos e religiosas, seminaristas, para que, chamados a trabalhar na vinha do Senhor, sejam guardiões de tudo o que este povo do Equador vive por entre lágrimas e alegrias.

A D. Lazzari, ao Padre Mina e à Irmã Sandoval agradeço as palavras, que me dão motivo para partilhar com todos vocês algumas coisas relativas à nossa solicitude comum pelo Povo de Deus.

No Evangelho, o Senhor nos convida a aceitar a missão, sem pôr condições. É uma mensagem importante que convém não esquecer, ressoando, com um acento especial, neste Santuário dedicado à Virgem da Apresentação. Maria é exemplo de discípula para nós, que, como Ela, recebemos uma vocação. A sua resposta confiante – ‘faça-se em mim segundo a tua palavra’ – lembra-nos as suas palavras nas bodas de Caná: ‘Fazei o que Ele vos disser’ (Jo 2, 5). O seu exemplo é um convite a servir como Ela.

Na Apresentação da Virgem, podemos encontrar algumas sugestões para a nossa própria chamada. A Virgem Menina foi um presente de Deus para os seus pais e para todo o povo, que esperava a libertação. É um fato que se repete frequentemente na Escritura: Deus responde ao clamor do seu povo, enviando uma criança, frágil, destinada a trazer a salvação e que, ao mesmo tempo, restaura a esperança de uns pais idosos. A palavra de Deus nos diz que, na história de Israel, os juízes, os profetas, os reis são um presente do Senhor para fazer chegar a sua ternura e misericórdia ao seu povo. São sinal de gratuidade de Deus: foi Ele quem os elegeu, escolheu e destinou. Isso nos afasta da auto-referencialidade, nos faz compreender que já não nos pertencemos, que a nossa vocação requer que nos afastemos de todo o egoísmo, de toda a busca de lucro material ou compensação afetiva, como nos disse o Evangelho. Não somos mercenários, mas servidores; viemos, não para ser servidos, mas para servir, fazendo-o com desprendimento total, sem bastão nem bolsa.

Algumas tradições sobre a invocação de Nossa Senhora de Quinche nos dizem que Diego de Robles fez a imagem por encomenda dos índios Lumbicí. Diego não a fez por devoção, a fez para tirar proveito econômico. Como não lhe puderam pagar, a levou a Oyacachi e a trocou por tábuas de cedro. Mas Diego se negou a atender o pedido daquele povo para que lhes fizesse também um altar para a imagem até que, caindo do cavalo, encontrou-se em perigo e sentiu a proteção da Virgem. Voltou à aldeia e fez o pedestal da imagem. Todos nós também já fizemos a experiência de um Deus que nos atravessa diante e que, na nossa realidade de caídos, derrubados, nos chama. Que a vaidade e o mundanismo não nos façam esquecer onde Deus nos resgatou! Que a Virgem Maria de El Quinche nos faça descer dos postos de ambições, interesses egoístas, cuidados excessivos de nós mesmos!

A ‘autoridade’, que os apóstolos recebem de Jesus, não é para seu próprio benefício: os nossos dons são para renovar e construir a Igreja. Não neguem a partilhar, não resistam a dar, não se fechem na comodidade; sejam mananciais que transbordam e refrescam, especialmente a bem dos oprimidos pelo pecado, a desilusão, o rancor (cf. EG 272).

O segundo traço que me evoca a Apresentação da Virgem é a perseverança. Na sugestiva iconografia mariana desta festa, a Virgem Menina se afasta de seus pais subindo a escadaria do Templo. Maria não olha para trás e, numa clara referência à advertência evangélica, caminha decididamente para diante. Nós, como os discípulos do Evangelho, também nos pusemos a caminho para levar a cada povo e lugar a boa nova de Jesus. A perseverança na missão implica não mudar de casa para casa, buscando onde nos tratem melhor, onde haja mais recursos e comodidades. Supõe unir a nossa sorte à de Jesus até o fim. Alguns relatos das aparições da Virgem de El Quinche dizem que uma ‘senhora com um menino nos braços’ visitou, durante várias tardes seguidas, os indígenas de Oyacachi, quando estavam refugiados por causa do assédio dos ursos. Várias vezes Maria foi ao encontro dos seus filhos. Eles não acreditaram nela, desconfiavam daquela senhora, mas admiravam a sua perseverança em voltar toda tarde ao pôr-do-sol. Saibamos perseverar, mesmo que nos rejeitem, ainda que se faça noite e cresçam a confusão e os perigos. Perseverar nesse esforço, sabendo que não estamos sozinhos, que é o Povo Santo de Deus que caminha.

De certo modo podemos ver, na imagem da Virgem Menina subindo ao Templo, a Igreja que acompanha o discípulo missionário. Ao lado d’Ela estão os seus pais, que Lhe transmitiram a memória da fé e, agora, generosamente, oferecem Ela ao Senhor para que possa seguir o seu caminho. A sua comunidade está representada no ‘séquito das virgens, suas companheiras’, com as lâmpadas acesas (cf. Sal 44, 15), nas quais os Padres da Igreja viram uma profecia de todos os que, imitando Maria, procuram sinceramente ser amigos de Deus. E estão os sacerdotes que esperam para recebê-la e que nos lembram que, na Igreja, os pastores têm a responsabilidade de acolher com ternura e ajudar a discernir cada espírito e cada chamada.

Caminhemos juntos, sustentando-nos uns aos outros e peçamos, com humildade, o dom da perseverança ao serviço deles.

Nossa Senhora de El Quinche foi ocasião de encontro, de comunhão, para este lugar que, desde os tempos dos Incas, se tornara uma povoação multi-étnica. Como é belo quando a Igreja persevera no seu esforço por ser casa e escola de comunhão, quando geramos aquilo a que me apraz chamar a cultura do encontro!

A imagem da Apresentação nos diz que a Virgem Menina, depois de abençoada pelos sacerdotes, se sentou nos degraus do altar e dançou a seus pés. Penso na alegria que se expressa nas imagens do banquete das núpcias, dos amigos do noivo, da noiva adornada com as suas jóias. É a alegria de quem descobriu um tesouro e vendeu tudo para o adquirir. Encontrar o Senhor, viver na sua casa, participar da sua intimidade compromete a anunciar o Reino e levar a salvação a todos. Cruzar os portais do Templo exige nos tornar, como Maria, templos do Senhor e nos por a caminho para O levarmos aos irmãos. A Virgem, como primeira discípula missionária, depois do anúncio do Anjo, partiu sem demora para uma cidade de Judá, a fim de compartilhar essa alegria imensa, a mesma que fez São João Batista saltar no seio da sua mãe. Quem ouve a sua voz ‘salta de alegria’ e se torna, por sua vez, um proclamador da alegria. A alegria de evangelizar move a Igreja, a faz sair como Maria.

Embora sejam múltiplas as razões que se invocam para a transferência do santuário de Oyacachi para este lugar, limito-me a uma: ‘aqui é e tem sido mais acessível, mais fácil para estar perto de todos’. Assim o entendeu o arcebispo de Quito, Frei Luis Lopez de Solís, quando mandou edificar um Santuário capaz de atrair e acolher todos. Uma Igreja em saída é uma Igreja que se aproxima, que desce para não estar distante, que sai da sua comodidade e ousa chegar a todas as periferias que precisam da luz do Evangelho (EG 20).

Agora vamos regressar às nossas tarefas, solicitadas pelo Santo Povo que nos foi confiado. Entre elas, não esqueçamos de cuidar, animar e educar a devoção popular que experimentamos neste santuário e tão generalizada em muitos países latino-americanos. O povo fiel soube expressar a fé com a sua própria linguagem, manifestar os seus sentimentos mais profundos de dor, dúvida, alegria, fracasso, gratidão com várias formas de piedade: procissões, velas, flores, cânticos que se transformam numa bela expressão de confiança no Senhor e de amor à sua Mãe, que é também a nossa.

Em Quinche, a história dos homens e a história de Deus convergem na história de uma mulher, Maria, e numa casa, a nossa casa, a irmã mãe terra. As tradições dessa invocação falam dos cedros, dos ursos, da fenda na rocha que foi aqui a primeira casa da Mãe de Deus. Falam-nos no ontem, de aves que rodearam o lugar, e no hoje, de flores que enfeitam os arredores. As origens dessa devoção nos levam para tempos onde era mais simples ‘a harmonia serena com a criação (…), contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença não precisa de ser criada’ (LS 225) e que Se manifesta no mundo criado, em seu amado Filho, na Eucaristia que permite aos cristãos se sentirem membros vivos da Igreja e participarem ativamente na sua missão (cf. Aparecida, 264), em Nossa Senhora de Quinche, que, a partir daqui, acompanhou os alvores do primeiro anúncio da fé aos povos indígenas. A Ela recomendamos a nossa vocação. Que Ela faça de nós um presente para o nosso povo. Que Ela nos dê a perseverança na entrega e a alegria de sair para levar o Evangelho de seu Filho Jesus – unidos aos nossos pastores – até os confins, até às periferias do nosso querido Equador."








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